quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Fronteiras do Pensamento – Zygmunt Bauman: diálogos.

Zygmunt Bauman inicia sua entrevista falando sobre uma mudança ocorrida no século 20, que foi a passagem de uma sociedade de produção para uma sociedade de consumo, e cita Jean Paul Sartre que defendia a idéia de que temos que criar um projeto de vida, a fim de chegar mais próximo de um ideal, mas para isso temos que seguir passos, ano após ano, porém isso não é levado a sério pelos jovens de hoje e percebe-se que está cada vez mais difícil saber o que vai acontecer no futuro, tornando árdua a missão de um projeto para a vida inteira. Como atingiríamos, então, o nosso projeto de vida? Jacobsen (2010), diz que “[...] para aprender a inovar, o ser humano precisa ser capaz também de desaprender, mas sempre dentro de um pensamento estratégico que define aonde ele quer chegar [...]”  (JACOBSEN, 2010, p. 148). Mas para atingir tal objetivo, o ser humano da atualidade deve adaptar-se às mudanças e estar disposto a tentar acompanhá-las.
Tendo em vista essas mudanças, percebe-se que a sociedade tornou-se individualizada e não pensa mais a respeito de assuntos ligados a que nação fazem parte ou a que movimentos políticos pertencem, ou seja, tendem a redefinir vários assuntos sobre a nossa vida, obrigando o individuo a criar uma identidade, mas não partindo do zero, e sim redefinindo-a, à medida que a vida vai passando, pois estilos e formas de viver mudam várias vezes durante a vida; ou seja, deve haver sempre uma readaptação em prol da construção da identidade de cada um. Nesse contexto, pode-se também falar sobre várias outras mudanças que ocorreram, não apenas do totalitarismo para a democracia, mas muitas outras que não se sabe ao certo se serão duradouras ou não e se vão influenciar a vida e as próximas gerações. Que mudanças são essas? Para se chegar à eficácia na realização dos objetivos, se busca as melhores tecnologias disponíveis, para tanto, se usa também a criatividade no saber-fazer, já que se dispõe de um avanço tecnológico sem precedentes em relação às décadas passadas. A técnica continua valendo e sendo a mesma de antes, mas a tecnologia evolui e muito rapidamente de tempos em tempos para responder às necessidades intrínsecas ao desenvolvimento do homem, que procura a priori, transformar o seu ambiente com os pressupostos do seu conhecimento.
Sobre a Pós-Modernidade, Bauman não sabe dizer se foi o início de uma nova forma de vida, que irá durar séculos ou se é apenas um período de transição de um tipo de ordem social para outro, pois quando uma sociedade encontra-se num período de transição, o acordo de convivência humana só vem com o tempo. De quanto tempo estamos falando? A sociedade tem pressa e está voraz por tecnologia. Drucker (2001), apud (COSTA, 2010, p. 25) estava certo em afirmar que são 50 anos para se mudar de um patamar de tecnologia para outro. É cultural e não se muda em uma ou duas décadas de investimentos, às vezes mal distribuídos.
 Ainda segundo o sociólogo, há duas coisas que aconteceram e são irreversíveis. A primeira é que a sociedade foi multiplicada e juntamente com ela, também se multiplicaram as conexões, as relações, interdependências, as comunicações espalhadas ao redor do mundo. Com isso, percebe-se que a sociedade encontra-se numa posição onde um depende do outro, ou seja, o que acontece em determinado local acaba tendo influência em pessoas que estão em outro local muito distante. Assim, pode-se considerar que o mundo tornou-se um único país em certo sentido. A segunda questão é que aproximadamente após 300 anos de história moderna, nossos ancestrais decidiram assumir a natureza sob a gestão humana, acreditando que ela obedeceria às necessidades humanas e que eles teriam pleno controle do que acontece no mundo, mas isso acabou, pois com todos os recursos utilizados pelo homem para explorar o planeta e para produzir mais, chegamos aos limites da suportabilidade do mesmo. Aonde isso vai nos levar? Com essa idéia de produção linear sem controle e com o consumismo exacerbado, certamente ao caos e à estagnação do planeta.
Bauman ainda destaca que um dos perigos para a democracia é a dimensão do divórcio entre o poder e a política, pois atualmente a democracia está em decadência e não é mais vista como uma coisa boa, diferente do que ocorreu na “era de ouro” da democracia, nos primeiros 30 anos do pós-guerra, quando ocorreu uma proliferação e florescimento da democracia ideal. Com isso, propõe a democracia global como solução radical, tendo ela que ser inventada, assim como nossos antepassados inventaram a democracia. Como exemplo, pode-se citar Aristóteles. Para ele, a democracia era pessoas que iam ao mercado, brigavam entre si e chegavam a uma solução. Diferente de hoje, onde as pessoas se reúnem em um parlamento e apresentam, discutem e votam em idéias. Isso implica que a democracia é uma noção que adquire diferentes formas com o passar do tempo. Assim, se a democracia global for criada, ela será uma democracia certa, pois acabará se adaptando às necessidades do Estado.
Em sua entrevista, Bauman também cita Castoridis, que defende a idéia de que deve haver uma cooperação mútua entre o individuo autônomo e a comunidade autônoma e que ambas só existem juntas. O perigo para essas autonomias veio da esfera privada e do individuo e não da esfera pública como imaginavam que ocorreria. A maior aproximação disso nos dias atuais são os “talk shows” na televisão. É neles que as massas participam, enviam mensagens, ligam. Algo semelhante ao que faziam na antiga Ágora.
Segundo Marchant e England (apud OLIVEIRA, 1994, p. 13), a maioria das pessoas acredita que a tecnologia afeta suas vidas de forma benéfica, pois proporciona maior liberdade pessoal, democracia participativa, mais tempo para recreação, maior conhecimento; e melhoria na qualidade de vida. (JACOBSEN, 2010, p. 133). Porém, nessa “democracia participativa” não se discute sobre o bem estar da sociedade, ou sobre o que precisa ser feito para abolir e reparar os problemas que todos sofrem na sociedade atual. Eles apenas confessam os problemas individuais e bastante íntimos. O sociólogo francês Ehrenberg, defende que a revolução pós-moderna começou nos anos 80, em Ágora, quando uma mulher, falou sobre seus problemas individuais. Para ele, esse foi o início da revolução, porque depois disso, as pessoas começaram a falar de coisas que eram a personificação da privacidade, da intimidade; e que não deveriam ser compartilhadas em público. Foi como se tivessem instalado microfones nos confessionários.
No mundo pós-moderno, atualmente existe o conceito de redes, mas qual a diferença entre comunidades e redes? Comunidade precede o individuo, ele nasce numa comunidade, ao contrário da rede que é feita e mantida viva por duas atividades diferentes. Uma é conectar e a outra desconectar. A atratividade do novo tipo de amizade está nisso, pois é mais fácil conectar e desconectar amigos do que estabelecer relações off-line, onde existe um contato maior entre as partes e o rompimento de relações pode se tornar algo traumático, diferente das relações na internet onde basta apertar “delete”. Tal comportamento faz com que os laços humanos se tornem uma mistura de benção e maldição. Benção porque é muito prazeroso, ter um parceiro em quem confiar e fazer algo por ele ou ela. É um tipo de amizade indisponível nas redes sociais. Maldição porque quando o indivíduo entra no laço, espera ficar lá para sempre e acaba perdendo várias oportunidades, pois fica preso às antigas obrigações. Pode ser definido como um fenômeno de solidão. Uma pessoa solitária no meio de milhões de solitários. Estamos todos numa solidão e multidão ao mesmo tempo, porém existem autores que defendem o uso das redes sociais.  Sant’anna (2010) afirma que a popularização da internet trouxe lazer barato para as famílias, segurança, conforto e comodidade; e que enquanto especialistas discutem o impacto negativo no que diz respeito ao convívio social e às relações afetivas. Há alguns que consideram um fator positivo, pois dificulta a perda de amizades por falta de tempo.  (SANT’ANNA, 2010, p. 20).
Bauman finaliza sua entrevista falando sobre dois tipos de valores essenciais e que são indispensáveis para uma vida satisfatória, recompensadora e relativamente feliz. São eles: segurança e liberdade. O ser humano não consegue ser feliz sem nenhum dos dois, mas ninguém no mundo encontrou a perfeita mistura para ambos. Ou seja, mais liberdade implica menor segurança.   Freud, em seu livro “O mal estar da civilização”, disse que a civilização é sempre uma troca, dá-se algo de um valor e recebe-se algo em troca. Ainda segundo ele, o problema da civilização da época dele é que eles entregaram a liberdade em prol da segurança. Zygmunt ainda apresenta duas conclusões, para os conceitos de segurança e liberdade. O primeiro é que nunca se encontrará uma solução perfeita para o dilema entre segurança e liberdade, o segundo diz que o ser humano nunca parará de procurar essa mina de ouro. Ainda na opinião do sociólogo, dois fatores que dão forma à vida humana, na sua concepção, são o destino e o caráter. O destino estabelece a gama de opções que são realistas para o indivíduo, se ele tivesse nascido antes ou depois sua gama de opções seria diferente. Há muitas opções definidas pelo destino, mas as escolhas são feitas pelo caráter. Ele ainda afirma que não é possível achar uma receita para felicidade. Muitos filósofos contemporâneos consideram o tipo de vida escolhido por Sócrates, como o segredo da felicidade, porém isso se deve ao fato de ele próprio ter criado a forma de vida que ele viveu. Pessoas que imitam o modo de vida de outras, traem a receita de Sócrates, pois para cada ser humano há um mundo perfeito feito especialmente para ele ou ela. Então, como podemos ser felizes em um mundo tão individualizado? Devemos traçar nossas metas de vida ao longo dos anos e vivê-las intensamente como se cada dia fosse o último dia de nossas vidas. As nossas alegrias ou frustrações são escolhas nossas e não dos outros para nós. Nós nos conectamos como e quando quisermos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS – ABNT. NBR 6023 – Informação e Documentação – Referências – Elaboração. Rio de Janeiro: ABNT, 2002. 24p.

______. NBR 10520 – Informação e Documentação - Citações em documentos – Apresentação. Rio de Janeiro: ABNT, 2002. 7p.

Filme: Fronteiras do Pensamento: Diálogos com Zygmunt Bauman. Londres, 2011. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=in4u3zWwxOM. Acesso em: 5 abr. 2014.

JACOBSEN, Alessandra de Linhares. Sistema de informação. Florianópolis: Departamento de Ciências da Administração /UFSC, 2007. 182p.

PRIBERAM. Dicionário da Língua Portuguesa On-line <http://www.priberam.pt/dlpo/>

SANT’ANNA, Solimara Ravani de. Informática e sociedade. Vitória: Ifes, 2010.      

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