Zygmunt Bauman inicia sua entrevista falando sobre
uma mudança ocorrida no século 20, que foi a passagem de uma sociedade de
produção para uma sociedade de consumo, e cita Jean Paul Sartre que defendia a idéia de que temos que criar um
projeto de vida, a fim de chegar mais próximo de um ideal, mas para isso temos
que seguir passos, ano após ano, porém isso não é levado a sério pelos jovens
de hoje e percebe-se que está cada vez mais difícil saber o que vai acontecer
no futuro, tornando árdua a missão de um projeto para a vida inteira. Como
atingiríamos, então, o nosso projeto de vida? Jacobsen (2010), diz que “[...]
para aprender a inovar, o ser humano precisa ser capaz também de desaprender,
mas sempre dentro de um pensamento estratégico que define aonde ele quer chegar
[...]” (JACOBSEN, 2010, p. 148). Mas
para atingir tal objetivo, o ser humano da atualidade deve adaptar-se às
mudanças e estar disposto a tentar acompanhá-las.
Tendo em vista essas
mudanças, percebe-se que a sociedade tornou-se individualizada e não pensa mais
a respeito de assuntos ligados a que nação fazem parte ou a que movimentos
políticos pertencem, ou seja, tendem a redefinir vários assuntos sobre a nossa
vida, obrigando o individuo a criar uma identidade, mas não partindo do zero, e
sim redefinindo-a, à medida que a vida vai passando, pois estilos e formas de
viver mudam várias vezes durante a vida; ou seja, deve haver sempre uma
readaptação em prol da construção da identidade de cada um. Nesse contexto,
pode-se também falar sobre várias outras mudanças que ocorreram, não apenas do
totalitarismo para a democracia, mas muitas outras que não se sabe ao certo se
serão duradouras ou não e se vão influenciar a vida e as próximas gerações. Que
mudanças são essas? Para se chegar à eficácia na realização dos objetivos, se
busca as melhores tecnologias disponíveis, para tanto, se usa também a
criatividade no saber-fazer, já que se dispõe de um avanço tecnológico sem
precedentes em relação às décadas passadas. A técnica continua valendo e sendo
a mesma de antes, mas a tecnologia evolui e muito rapidamente de tempos em
tempos para responder às necessidades intrínsecas ao desenvolvimento do homem,
que procura a priori, transformar o seu ambiente com os pressupostos do seu
conhecimento.
Sobre a Pós-Modernidade, Bauman não sabe dizer se foi o início de uma nova forma de vida,
que irá durar séculos ou se é apenas um período de transição de um tipo de
ordem social para outro, pois quando uma sociedade encontra-se num período de
transição, o acordo de convivência humana só vem com o tempo. De quanto tempo
estamos falando? A sociedade tem pressa e está voraz por tecnologia. Drucker
(2001), apud (COSTA, 2010, p. 25) estava certo em afirmar que são 50 anos para
se mudar de um patamar de tecnologia para outro. É cultural e não se muda em
uma ou duas décadas de investimentos, às vezes mal distribuídos.
Ainda
segundo o sociólogo, há duas coisas que aconteceram e são irreversíveis. A
primeira é que a sociedade foi multiplicada e juntamente com ela, também se
multiplicaram as conexões, as relações, interdependências, as comunicações
espalhadas ao redor do mundo. Com isso, percebe-se que a sociedade encontra-se
numa posição onde um depende do outro, ou seja, o que acontece em determinado
local acaba tendo influência em pessoas que estão em outro local muito
distante. Assim, pode-se considerar que o mundo tornou-se um único país em
certo sentido. A segunda questão é que aproximadamente após 300 anos de
história moderna, nossos ancestrais decidiram assumir a natureza sob a gestão
humana, acreditando que ela obedeceria às necessidades humanas e que eles
teriam pleno controle do que acontece no mundo, mas isso acabou, pois com todos
os recursos utilizados pelo homem para explorar o planeta e para produzir mais,
chegamos aos limites da suportabilidade do mesmo. Aonde isso vai nos levar? Com
essa idéia de produção linear sem controle e com o consumismo exacerbado,
certamente ao caos e à estagnação do planeta.
Bauman ainda destaca que um dos perigos para a democracia
é a dimensão do divórcio entre o poder e a política, pois atualmente a
democracia está em decadência e não é mais vista como uma coisa boa, diferente
do que ocorreu na “era de ouro” da democracia, nos primeiros 30 anos do
pós-guerra, quando ocorreu uma proliferação e florescimento da democracia
ideal. Com isso, propõe a democracia global como solução radical, tendo ela que
ser inventada, assim como nossos antepassados inventaram a democracia. Como
exemplo, pode-se citar Aristóteles. Para ele, a democracia era pessoas que iam
ao mercado, brigavam entre si e chegavam a uma solução. Diferente de hoje, onde
as pessoas se reúnem em um parlamento e apresentam, discutem e votam em idéias.
Isso implica que a democracia é uma noção que adquire diferentes formas com o
passar do tempo. Assim, se a democracia global for criada, ela será uma
democracia certa, pois acabará se adaptando às necessidades do Estado.
Em sua entrevista, Bauman também cita Castoridis, que defende a idéia de que deve
haver uma cooperação mútua entre o individuo autônomo e a comunidade autônoma e
que ambas só existem juntas. O perigo para essas autonomias veio da esfera
privada e do individuo e não da esfera pública como imaginavam que ocorreria. A
maior aproximação disso nos dias atuais são os “talk shows” na televisão. É neles que as massas participam, enviam
mensagens, ligam. Algo semelhante ao que faziam na antiga Ágora.
Segundo
Marchant e England (apud OLIVEIRA, 1994, p. 13), a maioria das pessoas acredita
que a tecnologia afeta suas vidas de forma benéfica, pois proporciona maior liberdade pessoal, democracia
participativa, mais tempo para recreação, maior conhecimento; e melhoria na
qualidade de vida. (JACOBSEN, 2010, p. 133).
Porém, nessa “democracia participativa” não se discute sobre o bem estar da
sociedade, ou sobre o que precisa ser feito para abolir e reparar os problemas
que todos sofrem na sociedade atual. Eles apenas confessam os problemas
individuais e bastante íntimos. O sociólogo francês Ehrenberg, defende que a revolução pós-moderna começou nos anos 80,
em Ágora, quando uma mulher, falou sobre seus problemas individuais. Para ele,
esse foi o início da revolução, porque depois disso, as pessoas começaram a
falar de coisas que eram a personificação da privacidade, da intimidade; e que
não deveriam ser compartilhadas em público. Foi como se tivessem instalado
microfones nos confessionários.
No mundo pós-moderno, atualmente existe o
conceito de redes, mas qual a diferença entre comunidades e redes? Comunidade
precede o individuo, ele nasce numa comunidade, ao contrário da rede que é
feita e mantida viva por duas atividades diferentes. Uma é conectar e a outra
desconectar. A atratividade do novo tipo de amizade está nisso, pois é mais
fácil conectar e desconectar amigos do que estabelecer relações off-line, onde existe um contato maior
entre as partes e o rompimento de relações pode se tornar algo traumático,
diferente das relações na internet
onde basta apertar “delete”. Tal
comportamento faz com que os laços humanos se tornem uma mistura de benção e
maldição. Benção porque é muito prazeroso, ter um parceiro em quem confiar e
fazer algo por ele ou ela. É um tipo de amizade indisponível nas redes sociais.
Maldição porque quando o indivíduo entra no laço, espera ficar lá para sempre e
acaba perdendo várias oportunidades, pois fica preso às antigas obrigações.
Pode ser definido como um fenômeno de solidão. Uma pessoa solitária no meio de
milhões de solitários. Estamos todos numa solidão e multidão ao mesmo tempo,
porém existem autores que defendem o uso das redes sociais. Sant’anna (2010) afirma que a popularização
da internet trouxe lazer barato para
as famílias, segurança, conforto e comodidade; e que enquanto especialistas
discutem o impacto negativo no que diz respeito ao convívio social e às
relações afetivas. Há alguns que consideram um fator positivo, pois dificulta a
perda de amizades por falta de tempo.
(SANT’ANNA, 2010, p. 20).
Bauman finaliza sua entrevista falando sobre
dois tipos de valores essenciais e que são indispensáveis para uma vida
satisfatória, recompensadora e relativamente feliz. São eles: segurança e liberdade.
O ser humano não consegue ser feliz sem nenhum dos dois, mas ninguém no mundo
encontrou a perfeita mistura para ambos. Ou seja, mais liberdade implica menor
segurança. Freud, em seu livro “O mal estar da civilização”, disse que a
civilização é sempre uma troca, dá-se algo de um valor e recebe-se algo em
troca. Ainda segundo ele, o problema da civilização da época dele é que eles
entregaram a liberdade em prol da segurança. Zygmunt ainda apresenta duas conclusões, para os conceitos de
segurança e liberdade. O primeiro é que nunca se encontrará uma solução
perfeita para o dilema entre segurança e liberdade, o segundo diz que o ser
humano nunca parará de procurar essa mina de ouro. Ainda na opinião do
sociólogo, dois fatores que dão forma à vida humana, na sua concepção, são o
destino e o caráter. O destino estabelece a gama de opções que são realistas
para o indivíduo, se ele tivesse nascido antes ou depois sua gama de opções
seria diferente. Há muitas opções definidas pelo destino, mas as escolhas são
feitas pelo caráter. Ele ainda afirma que não é possível achar uma receita para
felicidade. Muitos filósofos contemporâneos consideram o tipo de vida escolhido
por Sócrates, como o segredo da felicidade, porém isso se deve ao fato de ele
próprio ter criado a forma de vida que ele viveu. Pessoas que imitam o modo de
vida de outras, traem a receita de Sócrates, pois para cada ser humano há um
mundo perfeito feito especialmente para ele ou ela. Então, como podemos ser
felizes em um mundo tão individualizado? Devemos traçar nossas metas de vida ao
longo dos anos e vivê-las intensamente como se cada dia fosse o último dia de
nossas vidas. As nossas alegrias ou frustrações são escolhas nossas e não dos
outros para nós. Nós nos conectamos como e quando quisermos.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS
TÉCNICAS – ABNT. NBR 6023 – Informação e
Documentação – Referências – Elaboração. Rio de Janeiro: ABNT, 2002. 24p.
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NBR 10520 – Informação e Documentação - Citações em documentos – Apresentação. Rio de Janeiro:
ABNT, 2002. 7p.
Filme: Fronteiras do Pensamento: Diálogos com Zygmunt Bauman. Londres,
2011. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=in4u3zWwxOM. Acesso em: 5
abr. 2014.
JACOBSEN, Alessandra de Linhares. Sistema de informação. Florianópolis:
Departamento de Ciências da Administração /UFSC, 2007. 182p.
PRIBERAM. Dicionário da Língua
Portuguesa On-line <http://www.priberam.pt/dlpo/>
SANT’ANNA, Solimara
Ravani de. Informática e sociedade. Vitória: Ifes, 2010.
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